MST - 25 anos de luta!!!!

"Eu suplico aos deuses e aos demônios que protejam o Movimento Sem Terra e a toda sua linda gente que comete a loucura de querer trabalhar, neste mundo onde o trabalho merece castigo. (yo suplico a los dioses y a los diablos que protejan al movimiento sin tierra, y a toda su linda gente que comete la locura de querer trabajar, en este mundo donde el trabajo merece castigo)."
Eduardo Galeano – escritor


"O MST é a mais democrática organização social que o Brasil tem ou que já teve. Não esquece as necessidades individuais de cada um dos seus integrantes como costumam fazer as organizações políticas e é capaz de conjugá-las com as necessidades mais amplas da luta pela terra. Não só da luta pela terra, mas da luta pela emancipação do Brasil. Não só do Brasil como nação, mas dos brasileiros como gente."
Augusto Boal - diretor artístico do Centro do Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro



segunda-feira, 27 de abril de 2009

Relato sobre o projeto de formação no Assentamento Milton Santos (MST) – Americana/Cosmópolis – 23 de abril de 2009

Na semana passada, em 16/04, havíamos ido ao Assentamento respeitando nosso calendário de atividades (em anexo) que previa aquele dia como o primeiro dia de exibição/discussão de produções audiovisuais. Nosso projeto já vem sendo amadurecido desde 05 de março, quando confirmamos, eu (Potiguara), o Caio e o João, nosso campo de estágio a partir da possibilidade de se trabalhar com educação não-formal, possibilidade esta aberta pela professora Dirce Zan, professora da disciplina de Licenciatura que estamos cursando nesse primeiro semestre de 2009.

De lá para cá fomos três vezes ao Assentamento. Na primeira vez que estivemos lá, em 10 de março, construímos nossa proposta de trabalho junto aos militantes e à instância organizativa do Assentamento, que é a reunião da coordenação. Esta reunião conta com a participação de militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e com coordenadores-representantes dos núcleos de famílias do Assentamento. Nessa primeira apresentação de nossa proposta para o Assentamento, pudemos conhecer um pouco melhor sua estrutura de organização política e tivemos sugestões valiosas por parte dos militantes no sentido de fortalecer e lapidar nossa proposta. A partir dessas sugestões, definimos que nosso “curso de formação” teria três módulos e também passamos a ficar mais atentos às dificuldades relativas à estrutura para a realização que, se não sanadas, podem dificultar ou mesmo impossibilitar a realização do curso.

Até por conta da preocupação com a estrutura de funcionamento do projeto, estivemos novamente no Assentamento em 06 de abril para limparmos e organizarmos o espaço coletivo que nos foi cedido para a realização de nossas atividades. Contamos com a ajuda mais uma vez de nosso companheiro Kanova, que faz parte da organização (setor) de juventude do Assentamento. Tornamos o espaço de uns 30m2 receptível às nossas atividades jogando entulhos fora do cômodo, varrendo (embora o chão de terra batida esteja sempre “sujo”) e empilhando as mangueiras plásticas, que dispusemos em rolos, no fundo da sala. Dessa forma abrimos mais espaço próximo à pia e aos fogões que ficam na frente do cômodo (figura em anexo). É nesse espaço vazio que pretendemos realizar nossas atividades.

Na semana passada (16/04) conseguimos até um projetor, mas dada a ausência de divulgação da atividade por conta de desencontros na comunicação com os nossos contatos e com a coordenação do Assentamento, resolvemos apenas testar os equipamentos e deixar combinado as próximas exibições/discussões ou simplesmente “formações”, como sugerido por militantes do Movimento.

Foi hoje que iniciamos a formação propriamente dita. Chegamos às 18h55 ao Assentamento, mas foi preciso acertar alguns problemas de estrutura antes da exibição, a começar pela obtenção de uma lâmpada para poder iluminar o espaço para montarmos os equipamentos (essa semana trabalhamos com vídeo e TV pois não foi possível providenciar o projetor). O nosso companheiro Kanova nos providenciou a lâmpada; fomos eu e ele ao seu barraco, enquanto o Caio e o João descarregavam (no escuro com a ajuda da luz do celular) os aparelhos do carro. Quando voltamos, iluminamos a sala e começamos a instalar os equipamento, demos falta de uma extensão para ligar os aparelhos. Novamente o Kanova foi a sua casa, agora com a companhia do João.

O barraco em que mora com o pai fica a uns 200 metros do espaço onde estamos realizando as atividades. Esse cômodo que nos foi cedido funciona como cozinha coletiva e armazena mangueiras de irrigação, alguns livros e apostilas dispostos em uma prateleira, além de duas portas e dois sacos de cimento que serão usados na construção dos banheiros no barracão. Esse barracão fica logo ao lado do cômodo onde estamos desenvolvendo nossos trabalhos. É uma construção maior, com contra-piso, que serve tanto para reuniões do Assentamento quanto para cultos ecumênicos e seu pequeno palco talvez possa um dia servir para apresentações musicais e teatrais. Esse barracão é uma construção de alvenaria de ....X....metros e que tem um pé direito alto, de uns 5 metros. Logo ao lado do Barracão está o campo de futebol do Assentamento. Em frente ao cômodo em que passamos o vídeo tem um abrigo de uns 25m2, com uma cobertura de telhas, em que eram realizadas as reuniões do Assentamento antes da construção do Barracão maior. Ao lado desse abrigo está cavado o posso artesiano do Assentamento e sua bomba. O conjunto dessas estruturas formam a área social do Assentamento.

Enquanto o João e o Kanova foram pegar a extensão eu aproveitei e fui com o Éder no barraco dele, o mais próximo da área social, pegar o botijão de gás emprestado para que pudéssemos estourar as pipocas que trouxemos.

Por fim, depois de instalarmos os equipamentos, acertarmos as cadeiras e mesas onde nos acomodamos, estourarmos as pipocas e servirmos os refrigerantes para todos os presentes (Eu, João, Caio, Kanova, Eder, Marcião, Darci – Alemão, Zé Mário e dois meninos dos quais não sei o nome), começamos a exibição do vídeo umas oito e pouco. Passados os 75 minutos do filme, demos início à discussão, estendendo-a até 23:15.

A avaliação que fizemos na volta para Barão Geraldo foi positiva. A atividade cumpriu seu objetivo central de fomentar uma boa discussão. Essa discussão passou por diversos temas (tal qual o filme, como bem lembrou o João) que tentarei elencar a seguir:

- Colonialismo

- Exploração

- Mídia

- Uma possível “Lei da Igualdade”

- O papel do projeto de formação que estamos propondo para o Assentamento

- As dificuldades de organização política no Assentamento (o problema da desunião) e em toda a sociedade (outros movimentos sociais como o estudantil e o sindical)

- As dificuldades dos pequenos agricultores em produzirem e comercializarem (o papel positivo ou negativo do atravessador)

- A divisão social do trabalho em que um, necessariamente, depende do outro

- O papel do Estado na promoção da Reforma Agrária

- A confusão e contraposição entre “direitos” e “privilégios”, a partir da discussão de cidadania esboçada em um discurso de Milton Santos presente no filme

- A internacionalização dos ataques às condições de vida da população no lastro da discussão de globalização, central no filme e no pensamento de Milton Santos

- A necessidade de internacionalização da resistência a esses ataques por parte da classe trabalhadora, lembrando que fenômenos como a superexploração da mão de obra na China que repercute no rebaixamento das condições de vida dos trabalhadores no mundo inteiro

- A decisão política pela fome existente em nossa sociedade

- A posse do dinheiro como demarcador de valor dos seres humanos

- A estratégia da burguesia em colocar os trabalhadores contra os próprios trabalhadores, como no caso dos inúmeros ataques ideológicos desferidos contra o MST que repercutem na propagação do preconceito em relação ao Movimento no interior da própria classe trabalhadora

- A heterogeneidade existente no interior da própria classe trabalhadora (em que há trabalhadores menos pobres), que embora apontem diferenças não a descaracterizam enquanto classe (que vive da venda ou da tentativa de venda de sua força de trabalho)

- A necessidade (inegociável) de que a organização da sociedade garanta alimentação, moradia e trabalho para todos

- A necessidade de que em um momento de transformações políticas profundas rumo ao comunismo, o Estado deixe de punir e reprimir aqueles que produzem, como acontece hoje e passe a fazê-lo em relação aos que não produzem (Ditadura do Proletariado), até que as classes e o Estado sejam suprimidos e a questão da divisão entre quem produz e quem não produz se torne uma falsa polêmica

- A possibilidade de superação da sociedade em que vivemos, sociedade capitalista

- A distinção da ética da burguesia, inscrita na ideologia burguesa e a ética dos trabalhadores e a impossibilidade de a primeira ser universal, embora se proponha como tal

- A possibilidade que se abre para alguém que vê o filme pensar na Revolução

- A produção e realização do valor (acompanhando a discussão de produção e escoamento ou circulação)

- A importância da compreensão de trabalho abstrato, que abre a possibilidade de “igualarmos” e organizar os diversos trabalhos sociais (pois como já dito, um depende do outro)

- A universalização do conhecimento e das inovações tecnológicas como patrimônio da humanidade e não como fruto da inteligência de alguns indivíduos (o que pode ser demonstrado quando pensamos nos conhecimentos necessários para construir uma casa, como a que estávamos e na “milenariedade” desses conhecimentos

- A possibilidade de o avanço técnico favorecer o bem-estar humano (mas praticamente não entramos nessa discussão. Fizemos essa discussão entre nós três no caminho de volta)

- Junto à questão do preconceito em relação ao MST discutimos a questão da perseguição política às tentativas de organização do Movimento como no caso das escolas itinerantes ameaçadas de interdição no Sul do país (e que chegaram a ser proibidas, prejudicando sobremaneira as crianças em idade escolar e consequentemente suas famílias)

- A competição estimulada no interior da classe trabalhadora que introjeta elementos subjetivos nos próprios trabalhadores de desconfiança em relação aos irmãos de classe (como nas proposições que refutam a idéia de igualdade a partir do pressuposto de que grande parte dos trabalhadores almejam “se encostar”, se aproveitando dos que são inteligentes e esforçados

- A construção social de indivíduos inteligentes e esforçados. Um estudante da Unicamp é mais “inteligente” que um trabalhador rural por que?

- A fragilidade das leis burguesas que reiteradamente tem que negar aqueles seus conteúdos mais progressistas. Em relação a isso podemos discutir sobre o que precede o que: se as leis precedem as relações de produção ou estas precedem aquelas?

Sugerimos ao final da atividade que aqueles que quisessem poderiam escrever textos a respeito da discussão e que gostaríamos de recebê-los.

O Éder novamente sugeriu que conhecêssemos o filme “Cabra Cega” e nos emprestou um livro seu chamado “A hora obscura/testemunhos da repressão política” para que conhecêssemos.

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