MST - 25 anos de luta!!!!

"Eu suplico aos deuses e aos demônios que protejam o Movimento Sem Terra e a toda sua linda gente que comete a loucura de querer trabalhar, neste mundo onde o trabalho merece castigo. (yo suplico a los dioses y a los diablos que protejan al movimiento sin tierra, y a toda su linda gente que comete la locura de querer trabajar, en este mundo donde el trabajo merece castigo)."
Eduardo Galeano – escritor


"O MST é a mais democrática organização social que o Brasil tem ou que já teve. Não esquece as necessidades individuais de cada um dos seus integrantes como costumam fazer as organizações políticas e é capaz de conjugá-las com as necessidades mais amplas da luta pela terra. Não só da luta pela terra, mas da luta pela emancipação do Brasil. Não só do Brasil como nação, mas dos brasileiros como gente."
Augusto Boal - diretor artístico do Centro do Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro



terça-feira, 30 de junho de 2009

Ciranda, 27 de junho de 2009

Dia: 27 de junho de 2009
Educadores: Andrea, Pilar e Gabi
A atividade contou com a participação de 20 crianças, com idades entre 2 e 13 anos.
Relato da Pilar sobre as atividades:
“Chegamos lá e algumas crianças já nos esperavam no barracão. Mas ainda assim tivemos que andar um pouco pelo assentamento chamando outras.
Na casa do Júnior, ele quis nos mostrar o bezerrinho que tinha acabado de nascer, estávamos presenciando os primeiros momentos de vida, as tentativas de ficar em pé da Pandorinha; em seguida, Estrela, sua mãe, começou a comer a placenta, o que se tornou um momento de comoção geral: “ Ai que nojo” era o que mais ouvíamos!
Subimos novamente para o barracão, nesse trajeto o Rick pegou um pedaço de pau de tamanho médio e começou a bater no chão, depois nas pessoas, correu atrás do Jonas e eles começaram a brigar; conseguimos acalmar os ânimos (tirando o pedaço de pau da mão do Rick, de uma maneira um pouco coercitiva), e num é que logo em seguida ele acha um instrumento de ferro maciço e começa a ameaçar bater no Jonas e na Natália? Nesse momento, eu que estava do lado dele, tentei conversar, falei que não ia ser legal machucar alguém com aquele negócio, que eu não queria que ele ficasse ameaçando as pessoas ao redor dele; depois ele começou a jogar o negocio para cima, e a ameaçar o Jonas novamente. Senti a necessidade de ser um pouco mais rígida, tomei o ferro da mão dele e disse que se ele continuasse se comportando daquela maneira ele não poderia participar da atividade, falei que achava que precisava conversar com a mãe dele; aí depois de um segundo a mãe dele estava lá, a Natália que é irmã do Rick foi chamá-la; ela nem esperou explicações e já o levou de castigo, chorando para casa. (*No meio da atividade ele voltou, sorridente)
Depois de todo esse fuzuê, iniciamos as atividades. Primeiro brincamos de pega-pega fruta, a pessoa tem que falar o nome de uma fruta que ainda não foi citada para não ser pega, essa brincadeira deve ter durado uns 20 minutos. Em seguida fizemos uma roda e cantamos a cantiga do Bambu (Bambu, tirabu, arueira, mangabeira, tirara tal pessoa pra virar bambu – falamos o nome de um a um na roda e a pessoa vira de costas ainda de mãos dadas; depois repetimos o nome de um a um, e um a um as pessoas vão voltando a posição inicial); depois a cantiga da Viuvinha, que é a mais pedida (Viuvinha, por que choras, seu marido já morreu, se é por falta de carinha, se levante e abrace alguém, se quiser também! – fica uma criança no meio da roda e no final da cantiga, ela levanta e abraça alguém que vai substitui-la no meio da roda) e nenhum de nós entende o por quê.
Sugerimos então que a gente fosse procurar folhas, sementes, flores, ramos, casca de arvore, galhos e qualquer outra coisa pelo chão do assentamento.
Cada um com seus achados, nos reunimos para a hora da leitura. Eu li o livro: “Artur faz arte”. Escolhemos este livro, porque na semana anterior, tivemos dificuldade em fazer os mais velhos aceitarem os desenhos dos mais novos no mural coletivo. Essa leitura, objetivava então mostrar como qualquer desenho que fizermos pode ser encarado como arte, e atentamos para o fato de que estamos ali para realizar construções coletivas, e para tal, temos que aceitar as contribuições de todos. O livro mostra as pinturas abstratas de Artur, um garotinho de 4 anos, é todo colorido, e eles adoraram.
Como no meio da leitura todo mundo fica pedindo pra ler, dessa vez levamos um livro de poesias para quem quisesse ler em voz alta para os colegas. Júnior escolheu uma poesia que falava de beija-flor e amor, e o Igor leu junto com ele.
Estava um rebuliço só, e então a Gabi buscou tábuas grandes de madeiras que colocamos no chão como suporte das cartolinas azuis que levamos. Nos reunimos em três grupinhos, cada um com sua cartolina, seus potinhos de cola, seus achados pelo chão, e o elemento surpresa que eram sementinhas coloridas que compramos em uma casa de rações (amarelo, preto, vermelho e verde). A surpresa foi um sucesso, as crianças adoraram, pareceu. A proposta era misturar tudo o que quiséssemos no nosso desenho coletivo, e o resultado ficou lindo e colorido. Gostamos tanto dessa colagem, que cada grupo recebeu outra cartolina para fazer outro desenho coletivo. Houve briga por espaço, houve um reclamando que o outro estava estragando o desenho, que o pequenino desenhava feio....mas esses são conceitos que a gente vai ter que ir trabalhando, como já estamos; não é de uma hora pra outra que vamos conseguir fazer com que um menino de 12 anos aceite as bolinhas de uma menina de 2 como arte! Mas me pareceu que estamos no caminho certo.
Quando estávamos guardando as tábuas, a Fawane machucou a mãozinha, e começou a chorar descontroladamente, culpando a sua irmã, Rosana, pelo seu machucado e batendo nela. Gabi e Andrea tentaram controlá-la e eu fui guardar o resto das tabuas. Quando só faltava uma, a Fawane cismou que precisava ficar em cima dela, e não queria sair de jeito nenhum; eu fui tentar brincar com ela, juntamos pedrinhas e fomos conversando aí eu falei vamos sair, ela fez que sim com a cabeça; aí quando eu levantei ela no colo, ela começou a espernear, me arranhou pelo braço inteiro, e começou a puxar meu cabelo. A Rosana veio e começou a bater na Fwane para ela me soltar; eu falava pra Rosana parar de bater na Fawane, a Gabi veio e afastou a Rosana. Eu consegui fazer a Fwane se acalmar um pouco, mas ela ainda foi aos prantos pra casa. Não entendemos muito bem o que aconteceu, e esse surto histérico da criança com certeza teve algum motivo que não identificamos, porque ela sempre foi uma menina serena e risonha, foi essa a esquisitice da coisa.
Na volta só pensávamos em como estávamos com fome, e fomos ouvindo o CD eclético que a Andrea gravou.”

sábado, 20 de junho de 2009

Relato ciranda 20 de junho de 2009.

Fomos para o acampamento Raquel, Pilar, Natasha e Bruninho. Estamos em junho e o frio as nove da manha ainda é grande.
Chegamos e fomos buscar as crianças. Descobrimos que não teria escolinha dominical porque o padre Adão está na ocupação de cima. Acho que ate não se resolver esse problema, não haverá mais a escolhinha dominical.
Conhecemos o Paulo Henrique (filho da Branca). A Joyce estah muito mais feliz agora com a vinda de seu irmão. Veio me contar toda feliz que domingo vai ao posto vaciná-lo. Hoje foi um dia de bastante participação das crianças. Elas estavam felizes também. No total eram cerca de 20 crianças. Primeiro fizemos a roda com as musicas da “abobora” e do “bambu” que aprendemos na formação de educadores. A brincadeira logo se esgotou e começamos a fazer o batizado mineiro transformado: invés de falarmos o nome próprio, falávamos uma semente, planta, arvore arbusto, fruta, flor (etc.) que quiséssemos plantar. Muitos ficam envergonhados e demoravam para fazer o movimento e falar a palavra escolhida. Nessa hora, a pressão do grupo era grande. Para mim é bem claro que as crianças mais velhas têm um desenvolvimento de falar na frente das pessoas bem maior que os pequenos. Não sei exatamente por que.
Bom, como não conseguimos criar um ritmo muito fluido na brincadeira, as crianças se aborreceram e não quiseram fazer mais. Então, propomos o jogo de imitação. Foi interessante, a situação de jogo é realmente imprescindível para se pensar educação infantil. Depois, começamos a brincar de pega-pega corrente. Achei interessante, que não deu muito certo. Os pegadores não conseguiam alcançar as pessoas. Então, mudamos para pega-pega ajuda, e o jogo logo terminava: era bem mais fácil. As crianças adoravam, e nós não acompanhávamos muito (só o Bruninho)...
Havia dois bebes ali: seus irmãos estavam brincando com a gente. E eles (os nenês) não queriam participar, mas sim ficar com seus irmãos. Era complicado, porque eles choravam e não deixavam as crianças brincar. Essa é uma situação bem corrente no acampamento: os irmãos mais velhos (a partir de uns oito anos de idade) cuidam de seus irmãos mais velhos. A Joyce, de 14 anos, é praticamente mãe de seus irmãos. Hoje em dia é muito raro vê-la em nossas atividades: sempre está ajudando a mãe a cuidar das tarefas domesticas.
Bom, depois, lemos o poema do “Chuchu” de Luis Camargo (A Pilar leu muito bem e eu lia a parte do chuchu). Eles gostaram: adoram poesias! Alguns até declamaram algumas que sabiam, ficaram super agitados e empolgados com a situação de falar na frente de todos um poema. Para mim, todas essas situações me indicam claramente que temos que trabalhar mais os jogos teatrais com as crianças. Parece ser uma linguagem muito interessante e fértil para trabalhar os temas de gênero, violência, coletividade, etc., que queremos.
Levamos a caixa de materiais e propomos um desenho e colagem sobre as sementes, plantas etc. que eles gostam. Eles têm muitos problemas em dividir espaço e pedirem as coisas: sempre falam com se estivesse exigindo e brigando. “Me dá a tesoura agora Richard!!!” – em tom de comando. Essa é uma questão que temos que trabalhar arduamente, falando de um em um que é possível se comunicar de outra forma com as pessoas: pedindo tranquilamente. Aos poucos, as crianças vão se adaptando a essa nova maneira de se relacionar e o clima melhora bastante.
Depois, demos tintas para eles, e foi uma bagunça enorme: pintaram as mãos, misturaram as cores etc. foi legal, mas acho que precisamos nos organizar melhor para saber como lidaremos com essas situações: existem muitas crianças de idades diferentes, e as grandes, às vezes, acabam dominando o espaço, complicando o trabalho dos pequenos.
Acabamos a atividade, e a tia do Cleiton chegou com uma doação enorme de livros. Colocamos no barraco das aulas e fomos embora.

sábado, 6 de junho de 2009

Relato da atividade de 6/6/09 - Ciranda

Relato da ida ao acampamento Elizabeth Teixeira
[escrito por Natasha]
Dia: 06 de junho de 2009
Atividade: Ciranda
Presentes: Andréa, Natasha e Tamires
Chegamos ao acampamento e fomos buscar as crianças para a atividade. Muitas delas estavam na escola dominical e outras ajudando as famílias a mudarem pros lotes. Algumas também estavam ajudando pessoas a transportarem o gado que havia chegado.
Conseguimos reunir poucas crianças para ir pro barracão (com muita dificuldade, pois elas se dispersavam o tempo todo), a maioria delas menores. Estavam a Ju, o Jonas, a Gabi, o Caique, Mateus, (acho que tinha mais umas duas, não me lembro quem mais).
Fomos pro barracão e chegando lá havia um caminhão descarregando as primeiras compras de material que o pessoal havia comprado (enxada, carrinho de mão, arado, ...). Com isso, as crianças se dispersaram de novo e tivemos que esperar o caminhão ir embora pra conseguir reunir elas de novo.
A atividade acabou por começar umas 10h17 (havíamos chegado umas 9h20). Além das crianças já citadas, algumas chegaram pra atividade, mas saiam e voltavam o tempo todo, entre elas o Nilson, a Nathalia, o Rick, o Richard, o Junior e a Fauane.
Primeiro cantamos "dig dig dig da viola", tentando mudar a letra pra "eu vim de ... você da onde veio?", mas não funcionou bem, primeiro porque estávamos em poucos (e pequenos) e também porque muitos não sabiam de onde haviam vindo. Depois cantamos "Viuvinha" e "A linda rosa juvenil", aí tentamos o "Batizado Mineiro", se apresentando e dizendo da onde havia vindo. Funcionou melhor, pois havia mais crianças e maiores que já sabiam de que lugar tinham vindo.
Como elas estavam elétricas e não paravam quietas por conta das atividades que estavam rolando no acampamento, resolvemos fazer uns pega-pegas para elas sossegarem um pouquinho.
Depois disso contamos uma história que a Andréa trouxe "Nhoquita a Minhoca"; era a história de uma minhoca que nasce de um ovo e outra que nasce por bipartição da mãe. Elas conversam de onde vieram. Uma não conhece a própria mãe, a outra aprendeu tudo o que sabe sobre as minhocas e os outros bichos com a sua mãe. Essa minhoca, chamada Serpentinha, conta pra Nhoquita que as minhocas são responsáveis por arejar a terra e deixá-la fofa pra que se possa plantar nela e que as minhocas preguiçosas acabam por virar isca para peixes. O Nilson nos ajudou a ler a história.
Depois fizemos desenhos livre com barbante e giz de cera. O Richard começou a fazer e depois foi ajudar o tio dele, não terminou. O Mateus começou o desenho e a Nathalia terminou o dele. A Nathalia pediu para a Tamires fazer uma flor pra ela e o Rick pediu um barco, que ele terminou fazendo uma escada de fita crepe. O Caique começou a cortar seu barbante, mas não sabia usar a tesoura. Aí ele aprendeu e ficou o resto da atividade cortando barbantes. Eles não gostaram muito de usar o giz de cera e a Nathalia queria muito usar a tinta, mas como todos estavam usando o giz, achamos melhor na dar só pra ela a tinta. Ela foi pra casa e buscou um pote de tinta para pintar a flor.
A Tamires nos ajudou na atividade de sábado. Perguntou se o Clayton e o Maurício não iriam ajudar também na Ciranda. Se faz urgente a reunião de planejamento com a Jo e os outros educadores da Ciranda do próprio acampamento.
Obs: Andréa, se você se lembrar de algo, me complete!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

30/04 - Exibição de "Roger e Eu" no Assentamento Milton Santos

Presentes: João, Poti, Caio, Kanova, Gilmar, Darci, 2 meninos assistiram ao início do filme e foram embora, um outro chegou ao final do filme e ficou na discussão.

Conforme planejamos, nesta quinta-feira exibimos o filme Roger e Eu, de Michael Moore, para promover uma discussão focada no Primeiro de Maio, dia de luta da classe trabalhadora. O filme colaboraria neste sentido pois traz elementos interessantes do processo de acumulação de capital, mostrando a reestruturação produtiva na GM nos anos 80, fechando várias fábricas na pequena cidade de Flint, e as levando ao México, para rebaixar o custo da força de trabalho e ampliar os lucros. Os efeitos para a cidade em geral e para a classe trabalhadora em particular são devastadores. Lojas vão a falência, pessoas deixam de pagar aluguéis e hipotecas, sendo despejadas, os empregos somem, a criminalidade aumenta, o Estado não promove nenhuma política para tal questão.

Na discussão posterior ao filme, o primeiro a comentar foi o Gilmar, que achou o filme interessante porque ele mostra como existem algumas pessoas mais desenvolvidas que outras, que, no meio daquela crise, daquela situação desesperadora, lutaram, se esforçaram e acharam saídas. Isso em referência aos casos mostrados pelo diretor Michael Moore, de uma mulher que passou a vender carne de coelho, ou de alguém que inventou um equipamento para retirar pêlos das roupas, ou ainda daqueles que passaram a trabalhar de carcereiro no presídio, ganhando a metade do que recebiam e mantendo sob detenção ex-colegas de trabalho. Kanova e Darci comentaram mais no sentido geral do filme, o avaliando como muito bom, mostrando o desastre que os interesses privados de ampliar os lucros de uma empresa pode gerar em uma cidade inteira.

Nos atemos mais a discussão em torno do que disse Gilmar, por captarmos elementos da ideologia liberal em sua fala. Em outras discussões isso já havia aparecido, esta idéia de que algumas pessoas são mais esforçadas que outras, que umas são mais inteligentes que outras e por isso merecem ganhar mais, merecem “vencer na vida”. Tentamos, de início, questionar sobre essas saídas que os “inteligentes” e “esforçados” conseguiram. Seriam saídas válidas? São alternativas justas, honestas, adequadas ao problema do desemprego?

Em cima disto debatemos a questão do trabalho formal, organizado e planejado que é o trabalho da fábrica, que permite ao trabalhador um certo planejamento, já que sabe quando e quanto vai trabalhar e quando e quanto vai receber, em contraposição ao trabalho precarizado, parcial, sem jornadas fixas e sem salários fixos, colocando ao trabalhador um grau de exploração muito maior, já que ele próprio é quem, em tese, define seus ganhos, já que ganha de acordo com o tanto que trabalha. E se não houver trabalho a ser feito? Se não tiver para quem vender? Aí todo o planejamento do trabalhador vai por água abaixo.

Disso entramos em casos específicos de trabalhos em esquema de pirâmide, como contou Gilmar, de uma empresa chamada Hermes, e que aparece no filme o de uma outra empresa, em que a pessoa vende um determinado produto e ganha uma porcentagem, e, se ela conseguir trazer mais vendedores para empresa ela ganha uma porcentagem em cima do que for vendido pelos seus indicados, e assim sucessivamente. Tentamos, a todo modo, dialogar e mostrar que isto não é saída para a crise, não é saída para o desemprego, e que é, na realidade, um golpe em que obriga os vendedores a trabalharem muito (pois ganham de acordo com o que vendem) e a trazerem mais vendedores para a empresa, na realidade ampliando enormemente os lucros dos primeiros que entraram na pirâmide, no caso, a empresa.

Outro caso específico e interessante que debatemos foi o do trabalho no corte da cana. Gilmar já fez este serviço anteriormente. Argumentamos que a forma de pagamento, por tonelada cortada, aumenta a exploração do trabalhador, causando graves lesões e até a morte por estafa de muitos canavieiros. Ele contra-argumentou que isso ocorre porque a pessoa não sabe cortar direito, pois quem sabe cortar direitinho consegue cortar toneladas e toneladas de cana sem problemas. Disse até que é um bom serviço, pois pagam bem e o trabalho nem cansa tanto. Tentamos trazer dados de quanto ganha um bóia-fria no corte da cana, dados da quantidade média de toneladas que um trabalhador corta, da quantidade de mortes por estafa ocorridas recentemente, das comparações de vida útil em relação ao escravo canavieiro, etc. Entretanto, me pareceu que ele não foi convencido do debate. A experiência concreta dele, coisas que ele vive e/ou viveu, pesam muito na formação de sua consciência, muito mais que nossa argumentação, por mais correta e baseada na realidade que seja.

Por fim entramos num debate sobre os problemas do Brasil. Inicialmente apareceu a idéia de que o problema do Brasil seria a corrupção. Coisa que vem desde baixo até os de cima. Isto é, corrupção ocorreria desde pequenas ações (como alguém que vê uma caixa de doações para o assentamento e, antes de todos, pega as roupas que acha melhor ou que acha que servem e leva para a casa, e, caso não sirvam, envergonhado de ter pego antes de todos, joga fora ou põe fogo), passando pelos meios (Estado, INCRA, Prefeituras, Prefeitos, Vereadores, Servidores públicos, Governadores, Ministros, todos...) e chegando nos grandes desvios (dos senadores, deputados, presidente, incentivado por interesses do agronegócio, de empresas privadas). Tentamos desviar a corrupção de uma discussão estritamente moral, tirando o foco das chamadas “pequenas corrupções”, uma vez que se alguém rouba, desvia, trafica, ou faz qualquer dessas ações consideradas “corruptas” para se alimentar ou para alimentar sua família, não há como condená-lo e sim à sociedade. Então centramos fogo nas ligações claras que existem entre a corrupção e o capitalismo, isto é, nas relações entre as grandes empresas e o Estado. Porém e estranhamente, isso não é corrupção, já que é legal, está de acordo com o funcionamento do Estado. Daí enfim partimos à crítica do Estado e do Capitalismo, que, por privilegiarem os interesses das grandes empresas, dos lucros e de uma minoria, geram os principais problemas do Brasil, que não é a corrupção, mas sim a fome, a pobreza, a falta de trabalho, a falta de moradia, a concentração de terras, etc.

A discussão foi muito além do que relato aqui. Tentei me concentrar nas idéias centrais. Além disso, tivemos problema com o Marcião, que apareceu por lá bêbado, atrapalhando nossa atividade. O Poti conversou com ele e convenceu-o a não interferir. Por fim, ficou, para mim, novamente a sensação de que precisamos aprofundar nosso debate sobre Educação Popular, sobre metodologia, coisa que debateremos na próxima quinta-feira, para elaborarmos nosso projeto.

terça-feira, 5 de maio de 2009

RELAtOS aulas EJA 21, 22, 28, 29 de abril

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Aula terça-feira 21.abril

Chegamos ao acampamento, mas os educandos não estavam presentes como havia sido combinado na sexta-feira 16 de abril. Não houve aula.

Aula quarta-feira 22.abril

Estavam presentes Valtuízio e Luzia. Pedi a Valtuízio que tentasse escrever “casa de ferreiro espeto de pau” no caderno. Pedi para Luzia que tentasse escrever um ditado em seu caderno. Entregamos as fichas de alfabetização para os dois, que o pessoal do Elisabete preparou.


Aula terça-feira 28 de abril

educadores: Nara, Tira, Maria Emília

educandos: Valtuízo, Luzia, Cida


Trabalhamos alfabetização com as fichas preparadas pelos educadores do acampamento. Pudemos fazer um intensivo mais individualizado com cada um. Tuízo está juntando as sílabas. Luzia já tá lendo. Cida foi retomando, porque fazia um tempo que não vinha nas aulas.


Depois passamos a montar a tabela de horários de cada um em uma folha em branco. Pedimos para que escrevessem a hora do dia e as atividades feitas em cada horário. Tuízo lembrou do trabalho dele em uma construtora, como servente de pedreiro. E dos casos de acidente de trabalho. Também reclamou de dor no braço por causa do trabalho na roça.


Aula quarta-feira 29 de março

educadores: Tira, Rosemir, Claudinha, Ana Maria e Clayton

educandos: Tuízo, Luzia, Cida, Aparecida, Elza, Marcão


Trabalhamos desde o início da aula com todos os educadores, com a tabela de horários de um dia normal. Fizémos uma rodada sobre as atividades que cada um realizava e a hora do dia para essas atividades:


Coloquei o horário de cada atividade na lousa e escrevi o que cada um falava de acordo com a hora do dia: “5h30: Agradeço a Deus por estar vivo” - “6h lavo o rosto e escovo os dentes” - “6h10: Faço o café” - “6h15: Acordo as meninas”...


Perguntei se aquilo ali era trabalho, “se alguém ali era pago pra mandar os filhos para a escola”. Aparecida disse que não, que era obrigação. Marcão disse que até agradecer a Deus era trabalho: “Escovar os dentes é trabalho?”/ “Cozinhar é Trabalho?” / “Trabalho é quando a gente se dedica” - disse Aparecida.


Falamos sobre tipos de trabalho. Propûs uma divisão bem tosca dos tipos de trabalho:

    1) Trabalho na Roça; 2) Trabalho em Casa; 3) Trabalho de Cuidados Pessoais

    E começamos a pensar em uma forma de classificar as atividades de cada um.... E o tempo que cada um ocupava com cada tipo de trabalho.

propûs que pensássemos o tempo de um dia em um relógio. Marquei 12 horas e me enrolei.

Ana Mria propôs então o relógio de lousa com 24 horas para durar o tempo de um dia...(uma espécie de gráfico de pizza com o tempo de ocupação e as divisões do tempo ao longo do dia, de acordo com o trabalho realizado).

A partir daí fomos perguntando: Quanto tempo gastamos, em relação ao total das horas do nosso dia com o trabalho? Aparecida contou da época em que trabalhava das 6h da manhã às 7h da tarde em casa de família, como empregada doméstica.

pintei com giz azul a parte do relógio que marcava das 6h até as 19h. E apontei o espaço livre que indicava o tempo restante de um dia de 24 horas de Aparecida.

→ “Sobram 11 horas para dormir, descansar, tomar banho, fazer comida, ir no banheiro, cuidar dos filhos”. “Dá tempo de fazer tudo isso, sem problema?'

Propusemos uma reflexão sobre a jornada de trabalho de antigamente, nas primeiras fábricas: 18 horas e pintei na lousa a área que ia das 0h até as 18h.

→ “Hoje melhorou ou piorou?”--> melhorou porque é proibido trabalhar tanto tempo. “Mas isso funciona?”. A Aparecida mesmo falou que não, que só quem tem carteira é que trabalha 9 horas por dia.

Antes de acabar a aula agradeci o retorno do pessoal à classe e pedi para que ajudassem os educadores a chamar as pessoas que não mais estavam vindo. Comentaram da melhora da luz. Também pedi desculpas por não podermos acompanhar todos da melhor forma possível sabendo que alguns já estão sabendo ler e escrever e outros estão aprendendo agora a juntar as letras.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

25/04 - Exibição de Quanto Vale ou É por Quilo? no Assentamento Milton Santos

Presentes: João, Poti, Caio, Mariama, Kanova, Zé Mário, e muita gente que não sabemos o nome.

Este sábado fomos ao assentamento para a segunda exibição, conforme combinamos em nosso planejamento de ir um sábado por mês. Chegamos no horário combinado, porém, como das outras vezes, esquecemos algumas coisas e tivemos que correr atrás junto com o pessoal de lá. Faltou o T para ligar a TV e o DVD, uma panela menor para estourar a pipoca, e essas coisas.

Ficamos surpresos com a quantidade de pessoas que foram lá. Não esperávamos tanta gente, e, principalmente, não esperávamos tantas crianças. Tivemos que sair de nosso espaço (“cozinha”) e ir para o barracão mesmo, onde caberiam todos. Demos preferencia para as crianças pegarem pipoca (que não foi muita) e guaraná.

Depois de algum tempo conseguimos nos organizar para iniciar o filme. Antes de começar, conversamos rapidamente com todos sobre quem somos e o que estamos fazendo ali – estudantes da UNICAMP fazendo estágio de licenciatura no MST, por apoiarmos a luta do movimento – e pedimos desculpa pela falta de estrutura, já que, realmente, não era esperada tanta gente. Também conversamos com os pais presentes sobre o conteúdo do filme, inapropriado para as crianças, por conter cenas de violência. Entretanto, eles mesmos disseram que não tinha o que fazer, já que as crianças queriam ver o filme de todo jeito e elas acabam vendo cenas de violência em outros lugares, na própria TV.

O filme exibido foi “Quanto vale ou é por quilo?” do diretor Sérgio Bianchi, que faz uma crítica profunda às ONGs e entidades assistenciais. A própria linguagem estética do filme é difícil, diferente do que estamos acostumados. Trabalha com um paralelo entre nosso passado escravista e nosso presente, com diversas histórias paralelas com casos de exploração, corrupção, assistencialismo, racismo, dominação física, dominação psicológica, etc. Traz um aspecto muito interessante que os mesmos atores fazem papéis semelhantes no passado escravista e no presente capitalista.

O diretor centra fogo na transformação que o capitalismo faz da solidariedade. Transforma este sentimento, este valor, que é humano, em uma mercadoria, em um negócio. Dessa forma, mostra diversas histórias e dados do setor, explicitando que, ao invés de realizar o que promete, a assistência às pessoas carentes, ao menores abandonados, ao povo das periferias, aos idosos, aos desempregados, o assistencialismo é muito mais uma forma de obter lucros fantásticos, garantindo boa imagem para as empresas e isenções fiscais, e, para as pessoas, garante uma suposta felicidade, uma consciência tranqüila de “estou fazendo minha parte”. Também mostra que este trabalho assistencialista com a miséria tornou-se uma política de Estado. Uma vez que o Estado abandona ou nunca teve seu papel social, não garantindo os direitos sociais como saúde, educação, transporte, trabalho e etc, se abre a possibilidade de terceiros, organizações não governamentais, cumprirem esse papel, e, claro, recebendo para tal.

Durante a exibição do filme algumas pessoas foram chegando ou saindo. Avaliamos isso como um problema oriundo tanto da linguagem do filme, complexa e diferente do que estamos acostumados, quanto do espaço utilizado, muito amplo e aberto, que facilita a dispersão do pessoal.

No final, ficou para a discussão João, Poti, Caio, Mariama, Kanova, Zé Mário, e um menino que não lembro o nome. Fizemos um debate mais rápido, de cerca de uma hora. Conseguimos dar conta dos principais pontos que o filme nos abre, e a ponte com o filme de quinta-feira foi feita em diversos momentos. Também conseguimos extrapolar um pouco o filme e debater questões mais gerais ligadas ao assistencialismo, como as bolsas-família. Porém, devido a falta de pessoas, os debates não se aprofundaram tanto.

domingo, 3 de maio de 2009

relato de sábado 02-05

Relato 2-05-09
Grupo das crianças.
Fomos Raquel, Jotajota, Natasha e Evandro.
Chegamos no acampamento e fomos tocando o berimbau e um pandeirinho chamar as crianças. algumas estavam no culto, outras em suas casas. Conseguimos chamar poucas crianças. acho que foi porque era feriado. Não sei.
Bom, primeiro fizemos a capoeiragem com a Evandro por mais ou menos 50 minutos. Foi legal, ele falou bastante sobre como a capoeira e o nosso grupo é uma coisa só. Acho que ficou bem claro. Eu dei alongamento, o Joaozinho ajudou na roda e o Mauricio ajudou nos exercícios. O Evandro acredita mesmo numa relação horizontal nessa aprendizagem, sempre quer que todos participem igualmente.
Bom, depois continuamos a atividade como uma continuação da capoeira. Li o livro “Ana, Guto e o gato dançarino” e conversamos sobre o lixão do acampamento, a distinção entre lixo e sucata. Propomos que eles fizessem algum brinquedo com as sucatas que levamos, mas que não fosse para virar lixo depois. O Matheus e o Daniel participaram da atividade, foi ótimo. Todos ficaram muitooo empolgados com a idéia. A Luana fez um caxixi com copinhos de iogurte, o Richard fez um barraco escrito MST e uma guarita em cima com lona (pintou de preto), a Natalia fez um caxixi, uma outra menina (não lembro o nome), fez um binóculo, o Nilson fez um caminhão e portas coisas... foi bem interessante. Achamos que é um trabalho que deve ser continuado. Sinto que eles ainda ficam muito presos na realidade para fazer as coisas.
Trabalhamos a questão da coletividade, do material. Mas a natalia queria levar varias coisas para brincar sozinha.
Eles estão ocupando o barraco de alguém que foi para o lote. Então no sábado vários deles saíram do meio da atividade para construir o espaço deles. Acho interessante eles terem esse espaço. Mas acho que a ciranda seria um espaço mais coletivo e democrático. Temos que discutir isso.