Este sábado fomos ao assentamento para a segunda exibição, conforme combinamos em nosso planejamento de ir um sábado por mês. Chegamos no horário combinado, porém, como das outras vezes, esquecemos algumas coisas e tivemos que correr atrás junto com o pessoal de lá. Faltou o T para ligar a TV e o DVD, uma panela menor para estourar a pipoca, e essas coisas.
Ficamos surpresos com a quantidade de pessoas que foram lá. Não esperávamos tanta gente, e, principalmente, não esperávamos tantas crianças. Tivemos que sair de nosso espaço (“cozinha”) e ir para o barracão mesmo, onde caberiam todos. Demos preferencia para as crianças pegarem pipoca (que não foi muita) e guaraná.
Depois de algum tempo conseguimos nos organizar para iniciar o filme. Antes de começar, conversamos rapidamente com todos sobre quem somos e o que estamos fazendo ali – estudantes da UNICAMP fazendo estágio de licenciatura no MST, por apoiarmos a luta do movimento – e pedimos desculpa pela falta de estrutura, já que, realmente, não era esperada tanta gente. Também conversamos com os pais presentes sobre o conteúdo do filme, inapropriado para as crianças, por conter cenas de violência. Entretanto, eles mesmos disseram que não tinha o que fazer, já que as crianças queriam ver o filme de todo jeito e elas acabam vendo cenas de violência em outros lugares, na própria TV.
O filme exibido foi “Quanto vale ou é por quilo?” do diretor Sérgio Bianchi, que faz uma crítica profunda às ONGs e entidades assistenciais. A própria linguagem estética do filme é difícil, diferente do que estamos acostumados. Trabalha com um paralelo entre nosso passado escravista e nosso presente, com diversas histórias paralelas com casos de exploração, corrupção, assistencialismo, racismo, dominação física, dominação psicológica, etc. Traz um aspecto muito interessante que os mesmos atores fazem papéis semelhantes no passado escravista e no presente capitalista.
O diretor centra fogo na transformação que o capitalismo faz da solidariedade. Transforma este sentimento, este valor, que é humano, em uma mercadoria, em um negócio. Dessa forma, mostra diversas histórias e dados do setor, explicitando que, ao invés de realizar o que promete, a assistência às pessoas carentes, ao menores abandonados, ao povo das periferias, aos idosos, aos desempregados, o assistencialismo é muito mais uma forma de obter lucros fantásticos, garantindo boa imagem para as empresas e isenções fiscais, e, para as pessoas, garante uma suposta felicidade, uma consciência tranqüila de “estou fazendo minha parte”. Também mostra que este trabalho assistencialista com a miséria tornou-se uma política de Estado. Uma vez que o Estado abandona ou nunca teve seu papel social, não garantindo os direitos sociais como saúde, educação, transporte, trabalho e etc, se abre a possibilidade de terceiros, organizações não governamentais, cumprirem esse papel, e, claro, recebendo para tal.
Durante a exibição do filme algumas pessoas foram chegando ou saindo. Avaliamos isso como um problema oriundo tanto da linguagem do filme, complexa e diferente do que estamos acostumados, quanto do espaço utilizado, muito amplo e aberto, que facilita a dispersão do pessoal.
No final, ficou para a discussão João, Poti, Caio, Mariama, Kanova, Zé Mário, e um menino que não lembro o nome. Fizemos um debate mais rápido, de cerca de uma hora. Conseguimos dar conta dos principais pontos que o filme nos abre, e a ponte com o filme de quinta-feira foi feita em diversos momentos. Também conseguimos extrapolar um pouco o filme e debater questões mais gerais ligadas ao assistencialismo, como as bolsas-família. Porém, devido a falta de pessoas, os debates não se aprofundaram tanto.
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