Presentes: João, Poti, Caio, Kanova, Gilmar, Darci, 2 meninos assistiram ao início do filme e foram embora, um outro chegou ao final do filme e ficou na discussão.
Conforme planejamos, nesta quinta-feira exibimos o filme Roger e Eu, de Michael Moore, para promover uma discussão focada no Primeiro de Maio, dia de luta da classe trabalhadora. O filme colaboraria neste sentido pois traz elementos interessantes do processo de acumulação de capital, mostrando a reestruturação produtiva na GM nos anos 80, fechando várias fábricas na pequena cidade de Flint, e as levando ao México, para rebaixar o custo da força de trabalho e ampliar os lucros. Os efeitos para a cidade em geral e para a classe trabalhadora em particular são devastadores. Lojas vão a falência, pessoas deixam de pagar aluguéis e hipotecas, sendo despejadas, os empregos somem, a criminalidade aumenta, o Estado não promove nenhuma política para tal questão.
Na discussão posterior ao filme, o primeiro a comentar foi o Gilmar, que achou o filme interessante porque ele mostra como existem algumas pessoas mais desenvolvidas que outras, que, no meio daquela crise, daquela situação desesperadora, lutaram, se esforçaram e acharam saídas. Isso em referência aos casos mostrados pelo diretor Michael Moore, de uma mulher que passou a vender carne de coelho, ou de alguém que inventou um equipamento para retirar pêlos das roupas, ou ainda daqueles que passaram a trabalhar de carcereiro no presídio, ganhando a metade do que recebiam e mantendo sob detenção ex-colegas de trabalho. Kanova e Darci comentaram mais no sentido geral do filme, o avaliando como muito bom, mostrando o desastre que os interesses privados de ampliar os lucros de uma empresa pode gerar em uma cidade inteira.
Nos atemos mais a discussão em torno do que disse Gilmar, por captarmos elementos da ideologia liberal em sua fala. Em outras discussões isso já havia aparecido, esta idéia de que algumas pessoas são mais esforçadas que outras, que umas são mais inteligentes que outras e por isso merecem ganhar mais, merecem “vencer na vida”. Tentamos, de início, questionar sobre essas saídas que os “inteligentes” e “esforçados” conseguiram. Seriam saídas válidas? São alternativas justas, honestas, adequadas ao problema do desemprego?
Em cima disto debatemos a questão do trabalho formal, organizado e planejado que é o trabalho da fábrica, que permite ao trabalhador um certo planejamento, já que sabe quando e quanto vai trabalhar e quando e quanto vai receber, em contraposição ao trabalho precarizado, parcial, sem jornadas fixas e sem salários fixos, colocando ao trabalhador um grau de exploração muito maior, já que ele próprio é quem, em tese, define seus ganhos, já que ganha de acordo com o tanto que trabalha. E se não houver trabalho a ser feito? Se não tiver para quem vender? Aí todo o planejamento do trabalhador vai por água abaixo.
Disso entramos em casos específicos de trabalhos em esquema de pirâmide, como contou Gilmar, de uma empresa chamada Hermes, e que aparece no filme o de uma outra empresa, em que a pessoa vende um determinado produto e ganha uma porcentagem, e, se ela conseguir trazer mais vendedores para empresa ela ganha uma porcentagem em cima do que for vendido pelos seus indicados, e assim sucessivamente. Tentamos, a todo modo, dialogar e mostrar que isto não é saída para a crise, não é saída para o desemprego, e que é, na realidade, um golpe em que obriga os vendedores a trabalharem muito (pois ganham de acordo com o que vendem) e a trazerem mais vendedores para a empresa, na realidade ampliando enormemente os lucros dos primeiros que entraram na pirâmide, no caso, a empresa.
Outro caso específico e interessante que debatemos foi o do trabalho no corte da cana. Gilmar já fez este serviço anteriormente. Argumentamos que a forma de pagamento, por tonelada cortada, aumenta a exploração do trabalhador, causando graves lesões e até a morte por estafa de muitos canavieiros. Ele contra-argumentou que isso ocorre porque a pessoa não sabe cortar direito, pois quem sabe cortar direitinho consegue cortar toneladas e toneladas de cana sem problemas. Disse até que é um bom serviço, pois pagam bem e o trabalho nem cansa tanto. Tentamos trazer dados de quanto ganha um bóia-fria no corte da cana, dados da quantidade média de toneladas que um trabalhador corta, da quantidade de mortes por estafa ocorridas recentemente, das comparações de vida útil em relação ao escravo canavieiro, etc. Entretanto, me pareceu que ele não foi convencido do debate. A experiência concreta dele, coisas que ele vive e/ou viveu, pesam muito na formação de sua consciência, muito mais que nossa argumentação, por mais correta e baseada na realidade que seja.
Por fim entramos num debate sobre os problemas do Brasil. Inicialmente apareceu a idéia de que o problema do Brasil seria a corrupção. Coisa que vem desde baixo até os de cima. Isto é, corrupção ocorreria desde pequenas ações (como alguém que vê uma caixa de doações para o assentamento e, antes de todos, pega as roupas que acha melhor ou que acha que servem e leva para a casa, e, caso não sirvam, envergonhado de ter pego antes de todos, joga fora ou põe fogo), passando pelos meios (Estado, INCRA, Prefeituras, Prefeitos, Vereadores, Servidores públicos, Governadores, Ministros, todos...) e chegando nos grandes desvios (dos senadores, deputados, presidente, incentivado por interesses do agronegócio, de empresas privadas). Tentamos desviar a corrupção de uma discussão estritamente moral, tirando o foco das chamadas “pequenas corrupções”, uma vez que se alguém rouba, desvia, trafica, ou faz qualquer dessas ações consideradas “corruptas” para se alimentar ou para alimentar sua família, não há como condená-lo e sim à sociedade. Então centramos fogo nas ligações claras que existem entre a corrupção e o capitalismo, isto é, nas relações entre as grandes empresas e o Estado. Porém e estranhamente, isso não é corrupção, já que é legal, está de acordo com o funcionamento do Estado. Daí enfim partimos à crítica do Estado e do Capitalismo, que, por privilegiarem os interesses das grandes empresas, dos lucros e de uma minoria, geram os principais problemas do Brasil, que não é a corrupção, mas sim a fome, a pobreza, a falta de trabalho, a falta de moradia, a concentração de terras, etc.
A discussão foi muito além do que relato aqui. Tentei me concentrar nas idéias centrais. Além disso, tivemos problema com o Marcião, que apareceu por lá bêbado, atrapalhando nossa atividade. O Poti conversou com ele e convenceu-o a não interferir. Por fim, ficou, para mim, novamente a sensação de que precisamos aprofundar nosso debate sobre Educação Popular, sobre metodologia, coisa que debateremos na próxima quinta-feira, para elaborarmos nosso projeto.
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